12/Fev/2018
Entenda quais são os setores que mais geram empregos e impulsionam SC para fora da crise
Indústria da transformação, comércio e serviços

        

Esses três setores foram os principais responsáveis por Santa Catarina conseguir ostentar o posto de líder na geração de empregos no país em 2017, quando o saldo positivo de 29,4 mil empregos começou a vencer o revés das 91 mil demissões acumuladas no Estado no auge da crise econômica que assola o país desde 2014. 

Agora, como combustível extra para impulsionar de vez a saída da recessão, a agropecuária se une ao trio depois de ter conquistado a terceira melhor média de criação de vagas no último quadrimestre do ano passado
_ foram 301 carteiras assinadas no período _ e figurado entre os que menos fecharam postos de trabalho em 2015 e 2016. Juntas, as quatro áreas começam 2018 consolidadas como motores na recuperação econômica catarinense.

Presidente da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), Glauco José Côrte também acredita que os quatro setores puxarão ainda mais a retomada econômica catarinense e prevê um novo ciclo de crescimento a partir de 2019. Na avaliação de Côrte, a indústria da transformação tende a seguir na esteira em que está e pode, inclusive, repetir o feito de 2017, quando terminou o ano na liderança da geração de empregos no Estado, com 12,4 mil novos postos de trabalho.

— Os estoques já foram ajustados e as indústrias estão recompondo seus estoques, o que deve favorecer a geração de novos postos de trabalho. Além disso, a exportação tende a continuar tendo um bom desempenho, porque os principais países para quem nós exportamos apresentam essa tendência de crescimento. O país que cresceu 1% (em 2017), e que deve crescer pelo menos 3% em 2018, vai criar um ambiente muito mais favorável na geração de empregos — avalia o presidente da Fiesc.

Detentor da menor taxa de desemprego (6,7% ) do país atualmente, Santa Catarina é um Estado que se destaca não só pelo espírito empreendedor, mas também pela diversificação, equilíbrio e descentralização da indústria. Esse diferencial também é sentido no Comércio e nos Serviços, setores que se complementam. Invicto no último quadrimestre de 2017, o comércio foi o motor que conseguiu a melhor média de contratações do Estado do período entre outros sete setores. Sozinho, gerou 3,3 mil novos postos de trabalho entre setembro e dezembro. Já serviços foi o segundo motor mais potente do ano passado, com 11,1 mil admissões:

— O setor de serviços, além do agronegócio, que tem crescido acima da média e tem dado ao Estado a condição de termos tido o maior índice de empregabilidade durante esses anos de crise, tem respondido positivamente. Entendemos que se não houver outros fatores que venham a prejudicar essa tendência, sem dúvidas, ele de fato pode fazer a diferença. Há necessidade de crédito para que se sustente novos investimentos, facilitando a geração de empregos, que vai impulsionar a economia novamente — analisa o presidente da Fecomércio, Bruno Breithaupt.

Estabilidade política e a confiança do mercado

Sem negar os bons resultados atingidos ao longo do último ano, a geração de empregos no Estado ainda precisa crescer, no mínimo, 44,4% para voltar ao patamar de 2014. Nesse cenário, a supremacia econômica de Santa Catarina frente a outros Estados precisa torcer por um ano de eleições sem sobressaltos políticos, que em um efeito cadeia, podem abalar a confiança de quem investe.

— O que dá sustentabilidade ao crescimento da economia são os investimentos. São eles que terão condições de recuperar rapidamente o nível de emprego. A indústria cria, o comércio e serviços também, mas o que alavanca a geração de empregos são os investimentos. E esse fator pode sofrer alguma inibição com relação aos rumos da política — alerta Côrte.

Economista projeta níveis pré-crise ainda este ano 

A pedido da reportagem, Marcela Kawauti, economista-chefe do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) analisou os dados da geração de emprego em Santa Catarina nos últimos quatro anos. Diferentemente da reportagem que se baseou nos número do Caged, que considera apenas o emprego com carteira assinada, Marcela avaliou as estatísticas do IBGE que também consideram os empregos informais.

A economista resgata que o número de pessoas ocupadas em SC chegou a 62,4% no final de 2014, já no terceiro trimestre de 2017, esse índice estava em 61,1%. Ela projeta que, se o desempenho na criação de empregos seguir nesse ritmo, o Estado poderá atingir os níveis pré-crise até meados deste ano. No entanto, Marcela chama atenção para a influência política na continuidade da melhora ao longo de 2019:

— Ainda há muita indefinição política e a definição eleitoral será primordial para entender o caminho das variáveis econômicas em 2019. Essa definição é necessária no nível estadual, mas em medida ainda mais intensa, no nível federal. Um candidato comprometido com as reformas micro e macroeconômicas será primordial. Caso contrário, o Brasil poderá voltar a registrar variações negativas e os dados de Santa Catarina devem vir a reboque.

Agropecuária: terra fértil

Um ciclo virtuoso, com sucessivas etapas positivas, começando por melhores safras, impactando não apenas no preço final dos produtos para o consumidor, mas também barateando os grãos que servem de alimento para aves, farão do setor agropecuário um dos motores da geração de empregos em Santa Catarina ao longo de 2018.

– É oferta e demanda. Quanto mais oferta, mais equilibrada fica a demanda. É uma coisa que vai gerando melhora na outra. Uma safra melhor, preço melhor, mais gente trabalhando na safra, vai aquecer a economia, as pessoas vão poder comprar mais. É um ciclo onde tudo vai dando certo — define a especialista em Economia e Gestão Estratégica de Empresas e professora na Univali, Janypher Marcela Inácio.

Janypher ainda destaca que 2017 foi um período de resultados menos ruins na área, o que seria um demonstrativo positivo do que está por vir. A economista tem razão. Mesmo com fechamento de cerca de 1,2 mil vagas em dezembro e amargando o pior resultado no saldo geral do ano, a agropecuária teve a terceira melhor média na geração de vagas do Estado no quadrimestre, perdendo apenas para gigantes como serviços e comércio.

Mesmo com o melhor dos prognósticos, o setor também tem seu ponto fraco: a sazonalidade. Janypher alerta, por exemplo, para o desempenho da pesca, que deixou a desejar não apenas pela qualidade dos pescados, mas também pelos problemas de licenciamento impostos pelo governo.

— É algo que depende da natureza. É a sazonalidade que vai acabar ponderando qual setor vai melhorar mais. Acredito que a parte de grãos vai puxar mais forte e aves também, porque entra na cadeia — conclui.

Produção chega a dobrar no campo

Um exemplo do potencial de recuperação do setor pode ser visto na propriedade do avicultor Sérgio Valmórbida, em Linha Alegre, interior de Itá, Oeste do Estado. Superado o sufoco vivido entre 2015 e 2016, quando precisou demitir duas das cinco pessoas que trabalham na criação dos frangos, o agricultor conseguiu, em 2017, construir mais um galpão, dobrando a capacidade de produção anual de 50 mil para 115 mil aves. A ampliação gerou trabalho extra que rendeu três novas contratações entre o fim do ano passado e janeiro de 2018. Agora, Valmórbida, que também emprega os dois filhos, lidera uma equipe de sete pessoas.

Parceiro de grande empresa do setor, o avicultor recebe da empresa os pintinhos e também a ração dos animais. As galinhas são vendidas por cerca de R$ 0,80 depois de quase 45 dias de engorda, quando já pesam em média três quilos. Valmórbida, que está no campo desde 1986, conta que o preço está sempre na mesma faixa.

— Se criar pouco não sobrevive. Em 2015 o que salvou foi a produção de leite até porque na época eu tinha poucas aves. Agora mesmo dando pouco (retorno), tenho mais aves. As coisas não estavam fáceis, sabe? Ou aumenta (a produção) ou não vai — analisa ao comentar que um novo incremento deve ocorrer agora só em 2020 com a construção de mais um galpão com capacidade para 60 mil aves.

Assim como Valmórbida, o produtor de leite Enedir Zanchet, de 66 anos, também conseguiu ampliar o quadro de funcionários em outubro de 2017, depois de um período complicado no setor. Dono de um rebanho de 54 vacas leiteiras em Arvoredo, Zanchet contratou mais duas pessoas para ajudar no manejo dos animais e na ordenha. Ao todo, são quatro funcionários que lideram uma produção de cerca de 30 mil litros de leite por mês. O dobro do produzido há três anos.

— Em meados de setembro e outubro de 2016 muita gente acabou diminuindo o número de funcionários e a produção. O leite viveu uma crise diferente, primeiro teve um bom incremento, mas depois mergulhou e no fim chegamos a demitir gente. Agora, como eu vinha aumentando a produção, veio a demanda da contratação — conta Zanchet que também trabalha como veterinário.

Comércio: líder na criação de vagas

Considerado por especialistas o carro-chefe da economia catarinense e destaque a nível nacional quando o tema é recuperação, o comércio catarinense também se consolida como um dos motores que impulsionam a geração de emprego no Estado. É líder absoluto na criação de vagas no último quadrimestre de 2017 com uma média de 3,3 mil novos postos de trabalho no período. A geração de 7,8 mil novas vagas em 2017 deixou o fantasma de 2015, pior ano para o comércio em SC desde a pré-crise, para trás. Na época, foram fechadas 9,4 mil vagas, o segundo pior resultado, perdendo para a indústria da transformação, que naquele ano demitiu 36,4 mil pessoas.

— Todo mundo compra no comércio. Você não compra uma TV direto na fábrica, por exemplo. Num primeiro momento as pessoas reagem, começam a comprar  novamente num nível maior do que antes, e isso aparece no comércio. Ele é um indicador antecedente, pois se continuar assim vai ter impacto na produção da indústria e depois do emprego — contextualiza o mestre em Desenvolvimento Econômico e doutor em Economia pela Universidade Vanderbilt (EUA), João Rogério Sanson.

O indicativo de que o comércio é e será um dos principais motores na geração de empregos no Estado se reforça em outro ponto da avaliação de Sanson, que também estuda a macroeconomia. Ele pondera que, atualmente, os dados de consumo estão mais crescentes que os de investimento. O economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio-SC) Luciano Córdova explica que o consumo tende a ser menos volátil que o investimento em períodos de crise, por isso se percebe primeiro a recuperação dele e, depois, do investimento.

— No médio e longo prazo o que sustenta a geração de empregos efetivamente é o investimento. Ele é quem gera o dinamismo e a diversificação econômica capaz de aumentar a produtividade e, por fim das contas, de um crescimento sustentável. Mas já há sinais de recuperação. A tendência é de que o investimento retome aos poucos — projeta.

Lugar certo, hora certa

Um empreendimento misto erguido no sul da Ilha de Santa Catarina ao longo dos últimos cinco anos, entre licenciamento e obra, exemplifica bem o que os economistas projetam para o comércio ao longo deste ano. Com 155 escritórios, todos vendidos, e cerca de 30 lojas, quase todas já alugadas, e cinema, um empreendimento tem capacidade para gerar cerca de 1,5 mil empregos diretos. Em funcionamento e prestes a ser oficialmente inaugurado, o complexo, cujo investimento total foi de R$ 33 milhões, já emprega ao menos 300 pessoas, segundo estimativa da superintendente do espaço, Nara Schutz.

Pelo menos quatro dessas pessoas foram contratadas pelo Lucas Sandim, empresário gaúcho que, depois de uma temporada no Rio de Janeiro, mudou-se para Florianópolis. Há um ano na Capital catarinense, Lucas e a esposa Kim, florista que nasceu na França, decidiram aliar a qualidade de vida que possuem morando no sul da Ilha com o primeiro negócio do casal. O espaço, que se divide entre as mesas de um restaurante e uma  floricultura, será o primeiro a abrir as portas dentro do empreendimento.

— Fizemos contratações no começo do ano, mas entre fevereiro e março teremos, no mínimo, mais quatro contratações — projeta Sandim.

Nara, que também coordenou a execução de outro empreendimento em Palhoça, na Grande Florianópolis, lembra que entre 2016 e 2017 acompanhou a queda nos investimentos do setor imobiliário. Nesse contexto, ela credita o sucesso do negócio localizado no Rio Tavares ao planejamento. Na avaliação de Nara, a região ainda teria condições de receber, pelo menos, mais dois projetos similares ao que ela pilota.

Indústria da transformação: alta geração de empregos

Antes de se consolidar como um dos quatro motores da recuperação econômica de Santa Catarina, a indústria da transformação precisou vencer um longo e rigoroso inverno vivido entre 2015 e 2016. Os dois piores anos da crise econômica para o setor no Estado levaram consigo o emprego de 50,6 mil pessoas só nessa área. O alívio chegou nos primeiros meses do ano passado, quando em dois momentos a indústria fechou ciclos de quatro meses sem um único saldo negativo.

A geração anual de 12,4 mil novos postos de trabalho em 2017, melhor resultado do Estado no período, superou em mais de 150% as 4,5 mil vagas criadas em 2014, ano em que Santa Catarina já sentia o impacto da pré-crise que crescia no país. A melhora do setor que hoje se tornou ponto chave na recuperação da geração de empregos não foi abalada nem mesmo pelos saldos negativos em novembro e dezembro de 2017.

Ao todo, as empresas dispensaram 16,5 mil pessoas nesses dois meses. A  movimentação foi resultado das quedas sazonais provocadas por conta das demandas de fim ano que exigem mais da produção, mas que, ao abastecer estoques, voltam ao patamar inicial, gerando picos de admissões e, sucessivamente, de demissões.

— Iniciamos uma tímida, mas importante reversão do ciclo econômico. 2017 começou com aumento das exportações de produtos têxteis e calçadistas beneficiados por leve recuperação da confiança do empresário, por um câmbio mais atraente aos exportadores e pelo desempenho da economia global. Vendemos mais, mas veremos movimento de sobe e desce do crescimento no curto prazo — avalia a economista e professora da Univille Anemarie Dalchau.

Para manter um crescimento sustentado, conforme Dalchau, é preciso contar com investimentos, diferente da produção, que para crescer dependerá do consumo, que depende diretamente da criação de empregos, que gera renda:

— A condução da política econômica enquanto controles da inflação e política monetária geram confiança nessa retomada do consumo e Santa Catarina se insere neste contexto como um dos estados mais promissores para a recuperação econômica.

Demanda para costura e mais produção

A blumenauense Alessandra da Rosa Ortiz dos Passos é uma das muitas mulheres que integram a indústria têxtil no Estado. Este sub setor da indústria da transformação foi o que mais gerou empregos em Santa Catarina ao longo de 2017, em média 308 novos postos. E se depender da produção chefiada por Alessandra na facção localizada no bairro Passo Manso, este ano deve ter resultados tão bons quanto os do anos passado, quando ela chegou a efetivar duas novas costureiras. A produção melhorou tanto que, no começo deste ano três novas vagas foram abertas. A expectativa é de que as contratações sejam feitas até o fim deste mês.

Alessandra conta que a necessidade de ajuda extra havia surgido no fim de 2017, mas foi adiada por conta das férias. Com o reforço, serão 13 costureiras produzindo entre 380 e 400 peças por dia, dependendo do quão elaborado for o pedido já que o grupo trabalha, preferencialmente, com a confecção de camisas polo para grandes marcas. Os bons ventos sopram para longe o período vivido há três anos, quando Alessandra precisou demitir três pessoas da equipe por falta de serviço.

— Entre 2014 e 2015 chegou até a ficar dias sem nenhum serviço. Em 2016 começou a melhorar um pouco e 2017 que trabalhamos o ano todo a todo vapor. Esse ano estamos bem motivadas — conta.

Serviços: engrenagem ligada

Segundo lugar no balanço geral do ano passado, consolidando cerca de 11,1 mil vagas de trabalho com carteira assinada. Segundo lugar também na média do último quadrimestre, com saldo positivo de 1,1 mil empregos. Os números mostram que serviços é, sem dúvida, um motor na recuperação econômica do Estado, puxada pela geração de empregos. 

O sucesso do setor, que abrange desde instituições de crédito, transporte, comunicação, serviços médicos até ensino, administração de imóveis, alojamento, alimentação, reparação e manutenção, está diretamente ligado a outros dois setores chave dessa engrenagem, indústria da transformação e agropecuária.

— Ele acompanha os setores primários, que produzem matéria prima, como agricultura, pecuária, pesca e extração mineral, e secundários, que transformam a matéria prima em produtos de consumo. Quando a economia cresce, o setor de serviços também cresce — contextualiza o economista e professor da Furb, Jamis Piazza.

Da mesma forma que o setor de serviços é impactado positivamente pelo bom andamento dos demais, ele sofre as consequências na situação inversa. Piazza explica que esse setor sente automaticamente a queda dos demais porque é um impacto direto:

— Quando deixo de ter determinada renda, deixo de ter tipos de serviço, como almoçar fora ou usar carro todos os dias. Já se são abertas mais empresas, teremos mais supermercados, consequentemente aumenta o número de restaurantes e hotéis para suprir a demanda e a necessidade.

Investimento para crescer ainda mais

Os empresários Fernando Azevedo e Ana Muller Azevedo vivenciaram a crise econômica de forma diferente. Donos de uma empresa que trabalha com carros, em São José, na Grande Florianópolis, o casal não só conseguiu investir na infraestrutura da oficina mecânica como também ampliou o quadro de funcionários desde a inauguração do espaço, em maio de 2012.

— A cada ano venho aumentando uma ou duas vagas. Começou eu e meu marido e mais dois mecânicos e hoje temos cinco mecânicos e três pessoas no administrativo. É uma crescente e tenho mais uma vaga para mecânico, mas não encontro pessoas qualificadas. Quase sempre estou com essa vaga em aberto. Vejo que a minha concorrência passa pela mesma coisa — conta Ana, que administra o negócio.

A equipe atende de 170 a 190 carros por mês. Esse ano o objetivo dos Azevedo é crescer no mínimo 20%. Para alcançar essa meta, o planejamento é investir em um novo equipamento e gerar duas novas vagas.

Diário Catarinense

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