17/Ago/2017
Estado registra primeiro caso de leishmaniose
Florianópolis registra o primeiro caso do Estado de leishmaniose visceral em humanos.

        

O paciente, um homem de 53 anos, é morador do bairro Saco dos Limões e está internado desde o dia 9 de agosto, no Hospital Universitário. Seu estado, segundo a secretaria de Saúde da Capital, é considerado estável. A doença, que já tinha casos registrados em cães, hospedeiros do parasita, é grave e pode levar à morte.

O professor e pesquisador Mário Steindel, que atua no Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia (MIP) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) acompanha o caso e reforça a gravidade da patologia. O diagnóstico inicial da doença foi feito pelo laboratório do HU e MIP e depois confirmado pelo Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen).

— Essa doença é grave, se não tratada tem risco enorme de óbito. Ele vai ter que ficar internado por algum tempo — diz Steindel. 

Aumento do número de casos em cães acende alerta para leishmaniose em Florianópolis

 Também conhecida como calazar, a leishmaniose visceral humana é transmitida pelo mosquito-palha ou birigui (Lutzomyia longipalpis) que, ao picar, introduz na circulação do hospedeiro o protozoário leishmania. O cachorro não transmite a doença para outros cães nem para humanos, mas uma vez contaminado se torna portador – caso seja picado, infecta o mosquito-palha com a doença, tornando o inseto transmissor. Por ser um animal doméstico, estando intimamente próximo ao ser humano, o cão doente funciona como reservatório da doença. Por isso, os casos nos animais costumam preceder os em humanos, funcionando como um evento sentinela. 

O parasita se instala na medula óssea do infectado, o que diminui a produção de plaquetas. Ele também se desenvolve no fígado e baço e na fase mais avançada se espalha para outras partes do corpo, como linfonodos e intestino. Esse tipo de parasita também pode causar a leishmaniose cutânea, que se caracteriza por feridas na pele, porém com menor possibilidade de levar à morte. 

O secretário de Saúde de Florianópolis, Carlos Alberto Justo da Silva, explica que estão seguindo todas as orientações para esses casos. Já começaram a fazer os testes em todos os animais a dois quilômetros do caso registrado, além de conscientizar a população sobre a doença com panfletos. Os cães que estiverem infectados, os donos podem optar pela eutanásia assistida, que pode ser feita pelo Centro de Zoonoses de Florianópolis . Mas caso não queiram tomar uma medida drástica, devem comprar uma coleira repelente para os animais e também manter os cães em locais protegidos de insetos. Além disso, devem buscar um veterinário para fazer o tratamento adequado. 

— Nós estamos dando opção, nós precisamos orientar que existem outros métodos. É uma discussão muito séria, daqui a pouco vão fazer eutanásia em todos os cães e isso é uma preocupação. Não pode ser a única opção de fazer a eutanásia, mas também não pode não fazer nada — resume. 

Outra preocupação é que pessoas fiquem com medo de sacrificar o animal e também não queiram ficam com o cão, e por isso acabem abandonando, como aconteceu em outras cidades, diz o secretário. Silva acrescenta que devem, a partir desse primeiro caso, promover debates junto com universidade e outros envolvidos para discutir ações. Mas, para ele, a solução do problema passa pelo combate ao mosquito:

— Precisa ter cuidados ao jogar resíduos, não invadir áreas de mata, nós estamos tendo baixa eficiência em reduzir os mosquitos em geral, que preocupam não só pela leishmaniose, mas pela dengue, zika. 

Porém, em nota, a Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Dive) em Santa Catarina diz que conforme  resolução nº 1.000, de 11 de maio de 2012, do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), em atenção à Portaria Interministerial nº 1.426, de 11 de julho de 2008, seguindo recomendação da Organização Mundial da Saúde, todos os cães que receberem diagnóstico positivo de leishmaniose visceral canina deverão ser eutanasiados por representarem ameaça à saúde pública. 

 Steindel lembra que a leishmaniose visceral canina foi registrada pela primeira vez no Estado em 2010, com casos principalmente no bairro Lagoa da Conceição, em Florianópolis, mas que agora a doença está espalhada pela cidade. Segundo o levantamento da Secretaria de Saúde de Florianópolis, a leishmaniose visceral canina está distribuída em 34 bairros da Capital. Atualmente todos os Estados do Sul já registraram casos em humanos. Recentemente, em Porto Alegre (RS), três pessoas morreram em decorrência da doença. Quando detectada cedo, a leishmaniose visceral tem alto índice de cura em humanos.  

A orientação do Ministério da Saúde é que os animais sejam sacrificados, pois eles funcionam como fonte de infecção. O professor da UFSC lembra, no entanto, que o Ministério da Agricultura aprovou um tratamento para os animais, mas que este só melhora os sintomas, não cura. Por isso, segundo o especialista, não é uma solução. 

— As pessoas que têm animais doentes acabam não entregando [o cão para sacrifício], então a doença vai se espalhando e sai do controle. A possibilidade de ter caso humano era só uma questão realmente de tempo. É provável que tenha outras pessoas infectadas e que não foram diagnosticadas ainda. E não é uma questão só desse bairro, está espalhada pela Ilha — destaca Steindel.

Uma das principais formas de prevenção à doença em cães é a utilização de coleiras com ação repelente. Mas Steindel lembra que têm um custo e precisam ser trocadas depois de algum tempo de uso. Por isso é necessário adotar outras atitudes, como limpeza de áreas ao redor do quintal, pois o mosquito-palha gosta de lugares úmidos, escuros e com acúmulo de matéria orgânica. 

Também existe no mercado uma vacina para os cães, porém, a proteção informada pelo fabricante é de 96,41%, segundo a Dive-SC. Por isso é essencial adotar outras formas de prevenção.

Ações futuras em Florianópolis

Segundo a Secretaria de Saúde de Florianópolis, nas próximas semanas, serão feitas ações de sensibilização junto aos médicos veterinários para que notifiquem os casos suspeitos e confirmados da doença em animais. 

O trabalho também será realizado junto aos médicos da rede de saúde, que receberão o alerta epidemiológico para ficarem atentos aos sintomas em humanos. Pessoas oriundas de regiões de transmissão que apresentam a sintomatologia da doença devem ser submetidas a exame laboratorial e, se confirmado o diagnóstico, o tratamento, que é gratuito, é iniciado. O processo deve ser feito em ambiente hospitalar.

Casos em pessoas no Estado foram "importados"

Segundo a Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Dive-SC), somente no município de Florianópolis há registro de transmissão ativa (autóctone) de leishmaniose visceral canina. No último levantamento realizado, foram detectados 292 casos da doença em cães, a maioria na Lagoa da Conceição, no Canto da Lagoa e na Costa da Lagoa; mas bairros como Rio Tavares, Pantanal, Córrego Grande e Itacorubi também estão na lista. Nos demais municípios, SC totalizou 17 casos suspeitos em cães em 2016. Seis deles receberam diagnóstico positivo, todos casos com transmissão fora do Estado (importados). Desses, três foram sacrificados. 

Já em relação à doença em humanos, é o primeiro caso de transmissão dentro de Santa Catarina. Em 2016, houve registro de dois casos importados de leishmaniose visceral humana, de pessoas que contraíram a doença em outros Estados – uma em Minas Gerais e outra no Maranhão. Em 2015, não houve registro de casos importados da doença. No Brasil, a maioria dos casos registrados de leishmaniose visceral humana está concentrada na região Nordeste. 

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